sábado, 20 de novembro de 2010

Lou Reed em São Paulo: autógrafo em braço de fã vai virar tatuagem


Cantor participou de uma sessão de autógrafos para 250 pessoas do seu livro 'Atravessar o Fogo', que reúne 310 de suas letras

Lou Reed
Reed reclamou, resmungou e desdenhou de quase tudo ao redor.

Lou Reed é um doce com os fãs. De resto, o cantor de 68 anos, exaltado como um dos maiores compositores da música pop americana, é puro entojo. Foi assim nesta sexta-feira (19), quando participou em São Paulo de uma sessão de autógrafos para 250 fãs do livro Atravessar o Fogo (Companhia das Letras), que reúne 310 de suas letras. A fila para entrega dos ingressos começou às 6h15, 15 horas antes da chegada do cantor.

Reed, ou “a tia”, como é maldosamente chamado pelos detratores, reclamou, resmungou e desdenhou de quase tudo ao redor. A começar pelo hambúrguer escolhido por ele de uma lanchonete da cidade pela qual tem inusitada preferência. “Não vou comer isso. Está cru e as batatas fritas estão frias”, protestou afastando o lanche bruscamente e enlouquecendo os produtores, que tiveram de providenciar com urgência um bem passado. Entre o chilique e o conserto, foi-se mais de uma hora além do horário previsto para o início do beija-mão.

“Posso autografar para 350 pessoas. Gosto dos fãs, só não gosto de jornalista”, o cantor definiu um dia antes, depois de uma paciente negociação da editora para aproveitar a sua terceira vinda ao Brasil, para apresentar o show (20 e 21 de novembro) comemorativo dos 35 anos do disco Metal Machine Music, um amontoado de distorções eleito pela crítica um par de vezes como o pior disco da música pop. A conta não fechava. O largo número de fãs que Reed se dispunha a atender esbarrou no estreito tempo definido por ele: não mais que duas horas. Impossível. No fim, optou-se por 200 pessoas com possível acréscimo de mais 50, como o ocorrido. Para cada uma delas, até três itens assinados.

Trôpego e senil, Reed, que usava calça cargo e uma surrada camiseta de algodão, deu início à sessão para deleite dos apreciadores da sua música, a maioria jovens que nem eram nascidos quando ele se consagrou como o grande cronista nova-iorquino, com letras realistas e de tons poéticos a frente da banda The Velvet Underground.

Entre resmungos e diálogos rápidos com o produtor, Reed mostrou-se gentil e galanteador. Elogiou a beleza de dezenas de garotas da fila, perguntou a idade e fazia cara de surpreso como quem esperava que fossem mais jovens. Para alguns, indagou sobre os discos e os livros preferidos, ao que ensaiava breves sorrisos.

Os fãs, que pareciam diante de uma epifania, sorriam, apertavam sua mão, faziam juras de amor ou sequer conseguiam falar de tão intimidados. “Não, não aí. Não fumo e não gosto de cigarro”, retrucou para uma garota que insistia por um autógrafo num maço. Redimiu-se em seguida, quando ofereceu um exemplar do livro a uma fã que não tinha dinheiro para compra-lo. De repente, “quero um frozen sem açúcar”; entourage apressada e tenda. 

Frozen degustado e Reed seguiu sem avisar para mezanino da livraria. Foram 30 minutos de sono adornado por constrangedora roncadeira. Do lado de fora, a ansiedade tomava conta dos fãs. “Será que ele vai embora?” era o que mais se ouvia na fila. Ainda mais depois de ele cancelar em cima da hora a participação que faria em agosto na Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP.

Fã de Lou Reed
Fã de Lou Reed, a estudante Leia Araujo vai transformar em tatuagem o autógrafo do cantor

Ao retornar da sesta, pareceu mais disposto. A sessão que deveria acabar por volta das 20 horas arrastou-se por uma 1h30 a mais. Nos estertores do evento surgiu Leia Araújo, estudante de 18 anos. “Assina aqui. Vou fazer uma tatuagem”, disse ela mostrando o braço. “Não pode lavar, hein”, instruiu o cantor enquanto autografava a pele da menina que deixou a mesa suando frio e tremendo. “Acho que vou enfartar”, repetia Leia.

Não enfartou e, quando Reed se preparava para deixar a livraria, ouviu de Leia mais juras. “Ouço sua música desde os oito anos e sempre considerei você uma espécie de avô”. Surpreso, a tia, ou melhor, vovô Reed, esbanjou doçura, abraçou e agradeceu o carinho. 

Fim da sessão. Como bem disse um dos envolvidos, “nunca um título de livro fez tanto sentido: atravessamos o fogo”. 

Fonte: Veja Abril

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