quarta-feira, 1 de junho de 2011

Os fabulosos X-Men de Matthew Vaughn


Um ano depois da passagem de "Kick-Ass: Quebrando tudo" (2010) pelo Brasil, o inglês Matthew Vaughn prova que seu conhecimento da cartilha super-heróica vai além da anarquia, respeitando os conceitos de trágico e de épico ao revisitar um mito de formação. No caso, o mito de formação em questão no surpreendente "X-Men: Primeira Classe" ("X-Men: First Class), em cartaz a partir desta sexta-feira, é o da vilania. É o mito de Magneto.
Assim como M. Night Shyamalan fez em "A vila" (2004), só que sem apelar para o uso de dispositivos hitchcockianos de seu colega indiano, Vaughn produziu uma alegoria sobre a gênese do mal, a partir do instante no qual a realização de uma vingança pessoal dá espaço para um sentimento tirânico. Tirania é apenas um dos elementos que o alemão Michael Fassbender deixa transpirar em sua interpretação, ao compor com complexidade um personagem que se transfigura de Erik Lehnsherr, vítima do jugo nazista, no Mestre do Magnetismo.
Apoiada numa caprichada direção de arte, por vezes um tanto estilosa em excesso, a reconstituição dos anos 1960 costura signos que o audiovisual celebrizou daquela década. X-Maníacos puristas hão de chiar frente à decisão de Vaughn de aceitar a fusão de dois inimigos dos Filhos do Átomo numa só figura: o tipo encarnado por Kevin Bacon, é uma fusão de Sebastian Shaw, o mutante que absorve energia, liderando o Clube do Inferno, com o Sr. Sinistro, uma espécie de Menguele da raça nascida com Fatox X. Embore mescle traços de ambos os supercriminosos, ele fica com o nome de Shaw e se relaciona com uma Rainha Branca vivida sensualmente por January Jones.

Mesclando elementos dos filmes ingleses de espionagem dos anos 1960, evocando inclusive referências dos 007s com Sean Connery, "X-Men: Primeira Classe" tem um roteiro embolado no primeiro trecho em relação aos interesses concretos de Shaw em fomentar um conflito atômico em plena Guerra Fria, parafraseando a crise na Baía dos Porcos em Cuba.
Nos 30 primeiros minutos, as motivações de todos os personagens, bons e maus, parecem disputar a atenção do espectador, demorando a encontrar um equilíbrio. Mesmo assim, a maneira como Vaughn conduz o espírito de crônica de costumes de uma juventude que se percebe superdotada de poderes especiais imprime humanidade.
É pelas vias das inseguranças de aspirantes a heróis e anti-heróis - em especial a Mística vivida por Jennifer Lawrence, de "Inverno na alma", imersa em explosões hormonais - que a narrativa encontra sua harmonia, deixando claro a função dramática de cada um. E isso sem o cuidado de deixar o filme se perder em superficialidades arquetípicas. Três grandes atores, Bacon, Fassbender e James McAvoy, perfeito como Charles Xavier, não deixam que Vaughn vá pelas vias do banal.

Enquanto se esforça para narrar a formação da equipe original de X-Men, incluindo Fera (Nicholas Hoult, de "Um grande garoto"), Destrutor (Lucas Till) e Banshee (Caleb Landry Jones) mobilizados para derrotar Shaw, Vaughn jamais tira o foco das intenções de Magneto quando este decide se aproximar do grupo. Um gosto de revanche move o ímã humano em sua necessidade de acertar as contas com Shaw. Discreto, sem gerar alarde, o cineasta faz desse acerto de contas mote para sequências de ação dignas de James Bond, criando um espetáculo generoso em adrenalina e inteligência.
Fonte: O Globo

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